Belos Dias Cinzentos
O barulho da chuva na telha francesa,
abafava o ruído dos dados sobre a mesa.
Minha mãe cantava uma marchinha
e costurava na sua máquina pretinha.
Aprovava as amizades dos seus seis filhos,
costumava não colocar empecilhos.
Tínhamos nossas liberdades,
mas não com permissividades.
Meu pai folgava toda segunda-feira
e o grito do silêncio era na terça-feira!
Em dias chuvosos, nas férias de Janeiro,
rodadas de dominós eram o dia inteiro.
Alguns traziam seus cadernos já ralos,
pois teríamos adedanhas nos intervalos.
Já o jogo do bafo de figurinhas
tinha sua vez somente às noitinhas.
E por essas horas às vezes a luz se apagava,
e quando voltava todo mundo gritava!
A vizinha espreitada na janela,
chegara com sua sombrinha amarela.
Ela sempre trazia uma broinha,
planejava ficar até à tardinha.
Sob a chuva no varal havia um lençol,
fizeram uma simpatia em busca do sol.
Rabiscaram um sol na terra molhada,
para a chuva dar uma estiada.
Que nada! A dita cuja só apertava,
e ninguém já não se importava!
Lá fora só ficou a sabiá-laranjeira,
batendo água das asas no galho da aroeira.
Lá dentro os risos de qualquer brincadeira,
valeram por uma vida inteira.
Nilceia Herculano

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